So now you’d better stop and rebuild all your ruins, for peace and trust. Can win the day despite of all your losing*

08set08

Keffiyeh, Shemagh, Shmag, Yashmag, Ghutrah, Hattah, Mashadah ou simplesmente, para nós que falamos português, lenço palestino. Os árabes usam o Keffiyeh para se proteger do sol escaldante do Oriente Médio, da areia e dos ventos. Feito de algodão e às vezes com lã, o lenço também serve para mostrar a classe social e a origem dos homens que o usam. São como os tartans para os escoceses. As cores e padrões da trama representam um clã. Os totalmente brancos são usados pelos originários do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Omã, Kuwait, Bahrein, Qatar, Emirados Árabes, Irã e Iraque), os pretos e brancos pelos beduínos e os vermelhos e brancos pelos somalianos e jordanianos.

O shmagh mhadab, como é conhecido na Jordânia, é decorado com cordões de algodão em sua volta. Quanto mais compridos os cordões, mais caro, o que obviamente mostra a classe social da pessoa. Foi durante a Revolta Árabe, na primeira década do século XX, que o Keffiyeh ganhou uma conotação política, tornando-se símbolo do nacionalismo palestino. Essa visão foi reforçada nos anos 60, com Yasser Arafat cobrindo a cabeça com a ajuda do Agal, um cordão preto que segura o lenço. Virou marca registrada. Não demorou muito para os guerilheiros palestinos adotarem o Keffiyeh como parte integral de sua vestimenta.

As cores passaram, então, a ter uma outra simbologia. Os lenços pretos e brancos representam os membros do Fatah, o Movimento de Libertação Nacional da Palestina, liderado por Arafat. Os vermelhos e brancos são representação do Movimento de Resistência Islâmica, o Hamas.

Muitos exércitos, de diferentes países, passaram a usar o Keffiyeh tanto como símbolo de apoio à causa palestina como acessório de proteção em ambientes inóspitos. Daí foi um passo para ganhar as ruas das cidades ocidentais, virando acessório da moda nos anos 80. Muitas mulheres não árabes passaram a usar a peça originalmente masculina. Virou fashion statement.

A moda passa, muta e volta renovada. Em 2007, durante a semana de moda de Paris, Nicolas Ghesquière, apresentou a coleção outono/inverno da Balenciaga incrementada com um acessório politicamente polêmico: o Keffiyeh. No desfile, embalado por Led Zeppelin (Immigrant song), Klaxons (Magick) e Bloc Party (The prayer), diversas releituras do lenço palestino foram exibidas. E para quem acha que moda é uma indústria que vangloriza o supérfluo, um desfile é capaz de mostrar que história, política, religião, economia, cultura e muito mais está por trás de toda coleção.

Desde a trilha sonora ao cenário, passando pela escolha das modelos e a iluminação, todos os detalhes devem casar com a proposta da coleção. Ghesquière usou um simples lenço com a função originária de proteger o corpo de um povo e lançou um item de desejo. Não é futilidade. Não é descaso com a simbologia do Keffiyeh. A moda utiliza diversos elementos para contar uma história que será consumida por todos. Sim. Todos consumimos moda. E ser cool não é simplesmente correr para a loja e comprar a última tendência. Ser cool é consumir moda sabendo de sua história e significado.

A moda também acaba influenciando o mercado, não apenas o guarda roupas da patricinha. Com o Keffiyeh transformado em must have item, a indústria chinesa passou a produzir os lenços, como qualquer outro produto que exporta ao mundo, por um preço bem mais barato do que os originais. Yasser Hirbawi, que produzia os Keffiyehs na palestina há mais de 50 anos, fechou as portas de sua fábrica por não conseguir competir com os lenços palestinos chineses. 40% mais baratos.

Fútil não é a moda. Fútil é quem não sabe usar.

*Immigrant song, Led Zeppelin



3 Responses to “So now you’d better stop and rebuild all your ruins, for peace and trust. Can win the day despite of all your losing*”

  1. cuidado, que ao dizer “fútil é quem não sabe usar”, vc padroniza.
    da mesma forma que é perigoso dizer “todo o mundo fashion é fútil”, ao dizer “quem não usa é que é fútil”, isso não muda nada. o discurso continua o mesmo.

    a questão é: segue quem quer.
    se eu não sigo, isso não me faz menos [ou mais] fútil.

  2. 2 vi

    Adorei as explicações, muito úteis.
    Eu preciso confessar que não sabia usar.
    Comprei meu primeiro no Chile, porque achei lindo.
    Me lembrava alguma coisa, mas não sabia bem o que.
    Só descobri quando usei pela primeira vez e escutei uns dez “Dá-lhe Palestina!”.

    Depois continuei usando e até comprei mais um, porque eu achei ainda mais lindo.
    E tava usando feliz, até ir na Odisséia de Cinema no Unibanco lá da Augusta e ver que 11 entre 10 pessoas no local usavam os seus.

    Aí enjoei.

  3. Cadê, cadê, cadê, cadêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêêê a tatuagem???
    Tãããããããããõ curiosa…

    P.S.: a minha é amanhã!
    Nham, nham!


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