Please don’t go crazy, if I tell you the truth

06abr08

Acho que foi na cerimônia de despedida do Gustavo Borges, no Clube Pinheiros, que a Amanda e eu conversamos com a simpatissíssima Glenda Kozlowski, apresentadora do Esporte Espetacular. Lembro de ter comentado com ela sobre a então recente encerrada Olimpíada de Atenas, evento que ela teve a imensa alegria de cobrir. Durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos era visível a emoção dela, comentando do alto de um prédio que a Globo havia alugado (alugado aquele espacinho para transmissão no terraço de um prédio, que fique claro). Uma coisa que ela recomendou foi: junte dinheiro e vá para pelo menos uma Olimpíada na vida! É inesquecível!

Quatro anos se passaram. O Lula foi reeleito, sobrevivemos ao Bush, a Guerra no Iraque não terminou, os Argentinos continuam a fazer panelaços, alguém não pára de aumentar o termostato da Terra, o Zidane em algum momento achou que era touro e o homem não parou de cagar com o planeta. No Brasil o trânsito só piora, a violência só cresce e temos um exército de analfabetos formado a cada dia. Nada de anormal. Só que a cada 4 anos tudo pára. Todo o mundo volta sua atenção para algum país, torce pela sua nação (não. Nem nas Olimpíadas eu tenho algum rompante de patriotismo) e os políticos aproveitam a distração para esconder aquele último bafafá comprometedor antes das eleições. É uma época quase como o Natal. A gente finge que tá tudo bem, todo mundo é amigo de todo mundo, somos todos honestos e bons meninos(as). O Papai Noel aparece, todos acreditamos nele e o melhor presente que ele pode dar é um mundo melhor.

Só que este ano a cidade escolhida para dar as boas-vindas às nações amigas tem gerado mais polêmica que a vida amorosa do Sarkozy ou a festa da sardinha do ex-governador Eliot Spitzer acusação errônea de cafetina da cafetina amiga de modelos Andréia Schwartz.

A primeira vez que realmente me surpreendi com um choque cultural foi durante uma aula na Austrália. Estava em um momento Cebolinha, elaborando uma “saidinha estratégica” da aula para “acidentalmente” perder a minha vez de fazer meu weekly speech, quando um bate-boca de outra dimensão começou. A teacher Big Susan explicou o tema do speech daquela semana. Cada um teria que falar sobre uma pessoa que você bota lá em cima do pedestal e chama de “Meu Senhor”. Metade da classe me enchendo os botões para falar sobre o Pelé ou o Ronaldo… como se EU, em algum momento da vida, já tivesse admirado um jogador de futebol. Como exemplo (e para encorajar 80% da classe), a Big Susan disse Dalai Lama. Big Susan, Big mistake!

Na Austrália é assim: australiano não faz faculdade. Eles trabalham em cafés, vendem roupas de grife para as madames de Dubai e juntam dinheiro para viajar para a Tailândia. Quem enche sala de aula nas Universidades e viram os melhores amigos das bibliotecárias do campus são as centenas de milhares de estudantes nerds asiáticos. E muitos são chineses. Imagine um estudante esforçado, que adora ler, vive na internet e se considera culto e retentor de muito conhecimento geral. Pega esse carinha e imagine-o nascido e criado em uma cidade do interior da China, com todas as restrições, bloqueios e dominações impostas sublinarmente pelo governo. Agora pega esse indivíduo e coloque-o sentado do meu lado numa sala de aula de uma instituição de ensino de um país ocidental em um hemisfério oriental. Fu…!

Até aquele instante, nunca, ninguém daquela escola havia visto o Peter emitir uma única palavra acima de 2 decibéis. No momento que a Big Susan terminou de pronunciar o -ma de Dalai Lama, a sala se encheu com um grande e pesado suspiro seguido de um urro em chinês que, acredito eu já que meu mandarim não é lá essas coisas, pode ser traduzido como algo intraduzível. O chinês tímido e bonzinho soltou o Mr. Hyde e praticamente acusou a Big Susan, e todos que concordavam com ela em considerar Dalai Lama como uma pessoa admirável, uma louca demente homicida que compactua com o demo!

Na visão dele, o líder político e religioso do Tibet não passava de um assassino desertor que come criancinhas no café da manhã e seus cãezinhos no jantar. Ele até evitava mencionar o nome de tanto ódio que ele sentia. E isso era visível (e audível). Ele terminou o desabafo de indignação, se levantou e saiu da sala, batendo cada porta que achasse pelo caminho.

A Big Susan manteve a calma e, se deparando com um bando de olhos (enfim) arregalados que se viravam com medo para os outros 2 chineses do grupo, nos lembrou do rígido controle chinês das informações. Os conterrâneos do Peter abaixaram a cabeça (talvez por vergonha alheia?) e pediram desculpas pela reação do amigo. Na verdade, a chinesa nunca emitiu uma palavra durante os 3 meses que estudei com ela. O Harley, por outro lado, nunca respondeu tantas perguntas na vida naquele dia.

Eles nunca leram um livro se quer sobre o Dalai Lama. Publicações que mencionam qualquer Lama são proibidas. Não há notícias sobre ele na internet pois o governo chinês as filtra. Tudo o que a população chinesa sabe sobre o líder religioso Budista foi trasmitido dentro dos padrões, visão e interesses do governo comunista. E para os líderes políticos do grande tigre asiático, Dalai Lama não passa de um assassino desertor que ameaça a perfeita e afortunada sociedade chinesa. Para os chineses todo dia é Natal. Para o resto do mundo, o governo chinês mente mais que Pinóquio e bate mais que Capitão Nascimento.

No ano Olímpico, enquanto o resto do mundo assiste o exército chinês descendo do cacetete em monges budistas e manifestantes, a população da China exibe orgulhosa a preparação para os jogos sem desconfiar que seus governantes não sabem fazer conta, confundindo cento e tantos mortos por 10, ou sem questionar por que raios a transmissão de alguns programas na televisão mudam de repente de notícia ou simplesmente perdem a imagem.

A Reporters Sans Frontières é uma organização internacional que tem como lema defender a liberdade de expressão. E sua maior campanha no momento é exigir que o governo chinês cumpra sua promessa por maior liberdade aos jornalistas. Sem restrição. Sem repressão. Sem punição. Com informação.

Título: How to be dead, Snow Patrol



6 Responses to “Please don’t go crazy, if I tell you the truth”

  1. Pois zé, apesar dos protestos por onde passa a chama olimpica e dos futuros incidentes que ocorrerão, NADA ira ser feito. Não existe vontade política dos grandes países, inclusive do Brasil nessa questão. A China é um grande parceiro comercial dos paises do G8 e dos que compõe a BRIC, enquanto essa relação se mantiver forte, ninguem vai querer colocar o dedo na ferida, outro barril de polvora é a relação da China com Tawian, mas ali a situação é bem mais complexa.
    E segundo muitos economistas, a previsão é de que a China passe a comandar economonicamente o Mundo nesse séculoa, assim como foi com a Inglaterra e atualmente com o EUA.

  2. 2 Amanda

    Glendão…

    Mega profissional! Trabalhei com ela um ano e só tenho boas coisas para dizer a respeito dela. Ninguém faz vivo tão bem. Um espetáculo de mulher!

    Bjo, Vivs!

  3. Vivi, estou a procura de blogueiras bonitas para uma ação online.
    Acho que você se encaixa bbem no perfil.
    Se te interessar, por favor, me mande um e-mail.

  4. 4 Amanda

    Nossa, eu sou uma blogueira muito mais bonita que vc e me encaixo no perfil bem melhor do que vc!

    hahahahahaha

    Ah, sou modesta!

  5. 5 lirodrigues

    Vi!

    Que saudade de vc, mulher!
    Então, adoro a Glenda, ela é uma fofa, gosto muito quando cobre o GP Brasil.

    Ah, e vc está bonitona, viu! rs

    Beijo!

  6. 6 Vi

    Apesar de tudo, eu iria.
    Não pela Olímpiada em si, mas sou louca pra conhecer a China.


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